quinta-feira, 1 de julho de 2010

Os donos do trabalho


















Komintern

Os donos do trabalho
Tomaram conta das empresas
Jogam as cartas do baralho
Que escondem debaixo das mesas.

Tomaram conta das empresas
Sem escrúpulos apoderam-se
Dos lucros sem as despesas.
Ao trabalho concederam-se

São os donos do trabalho
A eles devemos o emprego
Mandam os donos pró caralho
E os trabalhadores pró sossego.


24.04.2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Encontro




















Leonardo da Vinci, "Vitruvius"


Queria ouvir, afinal ditei o assunto da conversa
Marcar o encontro, abrir a porta, esperar
Entrei com questões e fui examinado, fui falar
Perante o silêncio, parti sempre e vice-versa.

Porque tudo está determinado, tudo tem um plano
A origem está no sujeito que é apenas parte do todo.
Aprende-se com o erro, regularmente, ano após ano,
Vive-se, morre-se e o vórtice roda para o centro do rodo.

Leis inexoráveis que ultrapassam o entendimento
Apenas os acidentes naturais não são provocados
E estes podem ser previstos antes do momento,
Mas os danos, por desconhecidos, não são evitados.

Oh! Razão soberanamente iluminada,
Mentes que brilharam para a Humanidade
Hoje esquecida e são para o Homem nada.


11.06.2010

terça-feira, 8 de junho de 2010

Coisas













Nadir Afonso, Cidades


Que importância têm para nós as coisas?
Haverá significado neste mundo material?
Todas as coisas estão no chão
Fui eu que as lancei, sem ser por mal
Partidas estão as louças, não fui eu não.

Ainda há aqueles que tudo fazem por dinheiro
E todos os que não se preocupam
Com o mal que fazem a si e aos outros.
Mas afinal haverá o que todos procuram?

Segurei os meus desejos presos dentro
De mim. Apodreci-os não os realizando.
Hoje, tenho a memória deste poema
E surpreende-me a incapacidade que enfrento
Sinto-me vagueando, perdido na arena.

Como alguma vez conseguirei a este conto
De fadas a que pertenço?
Príncipe de coisa nenhuma, rei sem trono,
Já está perdida a batalha que venço.


1993

domingo, 30 de maio de 2010

Mauritânia









«... De Mauritânia os monte e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu
Deixando à mão esquerda, que à direita
Não há certeza de outra, mas suspeita.»
(Camões, "Lusíadas", V, 4)



Haja civilização lusitana que deu o mundo a conhecer
Nestes nativos da república que se diz portuguesa.
Possa o povo que já possuiu as terras do amanhecer
Ter também o interior das muralhas da sua defesa.

Mauritânia de exóticos sabores e esquisitos costumes
Hoje vens ensinar os patrícios acerca da tradição
Pois o culto e a família foram suprimidos numa nação
Onde apenas os ricos e os poderosos ficam incólumes.

Cristãos que ofertavam com a direita e a esquerda
Aprendem agora com os árabes os princípios de higiene,
Num caldeirão de culturas onde a grande perda
É do individualismo perante o colectivo mais perene.

O que levou os portugueses a descobrir novos mundos
Foi a curiosidade, a sede de desvelar o desconhecido,
Que moveu vontades, propósitos, templários e fundos
Até partir para partes que sonha o homem adormecido.

Em duas metades dividimos a esfera terrestre:
Uma, onde habita a novidade, a aventura
A outra, velho continente, onde o saber é mestre.

Ambas existiam, desconhecidas e ignotas
Antes de serem homens a elas levados
Por secretos mapas e ocultas rotas.


22.05.2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Letras são tretas


















Libro d'Ore, usu di Roma, manoscritto

Parece fácil discorrer
Falando discursos
Ou simplesmente escrever
Sem grandes recursos

Mas por detrás das letras
Esconde-se um mundo
De ilusão e de tretas
Mas de verdade lá no fundo.

A colega acusa o poeta
De palavras inventar,
Quando o discurso penetra
O mais profundo pensar,

Tantas tricas, tantas tretas
São as de quem acusa
O verdadeiro homem de letras
E o genuíno saber recusa.


24.04.2010

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sombras















Capitéis na porta da Sé de Lisboa, lado esquerdo


À sombra, perto do lago onde os peixes vermelhos
Nadavam, procurando algumas migalhas ou insectos
Desprevenidos que servissem de lanche, os velhos
Gatos esperavam pardais, em idade menos provectos.

Até mesmo as palmeiras, com as suas bananas,
Participavam no ciclo do comer, alegre festim
Banquete de criaturas, homens e deusas dianas
Em que comer e ser comido é um acto sem fim.

Mesas e cadeiras, também elas, apreciando fazerem
Parte da criação, rejeitavam serem meras narrativas,
Mas apenas suporte da escrita original - não o ser em,
Mas sim o ser aí, apanágio da eternidade e das divas.

Eis a Natureza, que prossegue o seu caminho, louca
Na ebriedade simples da água, e sua eterna rival,
A Técnica, também ela numa exigência que coloca
A verdade como simples produção, na corrida do mal.

Oh! Mediador entre os animais e os deuses, ignara
É a tarefa do Homem: participar na infinita ceia
Ou alimentar de verdade a Técnica que o mata.

Mas, no imenso saber da criação ignorante de Geia,
Tudo tem explicação: o Homem é pasto da autómata
Técnica, que o sucede no topo da alimentar cadeia.


10.08.2000

domingo, 25 de abril de 2010

O Supra-Camões




















Camões, por Fernão Gomes

"... E que os que têm juízos mais inteiros,
Que só por puro engenho e por ciência
Vêem do mundo os segredos escondidos,
Julgam por falsos, ou mal entendidos."

Luís de Camões, Os Lusíadas, canto V, 17


Ó homem teórico, mergulhado em cálculos
Vives num mundo ilusório, torre de marfim
Quando quem executa, com vigores másculos
Conhece a razão da ordem, condu-la a um fim.

A maior injustiça, os piores erros na construção
Surgem quando os técnicos fechados nos gabinetes
Ignoram a voz da experiência e invertem a razão
Cuidando possuir autoridade: - vê lá com quem te metes!

Ó engenheiro, ó cientista, porque tens a teoria
Mas vives num mundo de mal-entendidos e falsidade,
Porque o timoneiro conhece a maré e a maresia
E tu não dás o valor devido à experiência e à idade.

Muito do saber que julgas dominar está subsumido,
Oculto em círculos onde nunca irás penetrar.
Não te esqueças que o dinheiro por ti presumido
É o resultado de muitos obreiros a trabalhar.

Olha bem o invisível, procura despertar a ordem
Ou serás rejeitado pelos padrões e o capital
De saber será como vás ilusões que se desvanecem.


24.04.2010