sábado, 12 de setembro de 2026

Oráculo

 













A sombra do oráculo que nada esconde 

Busco acordado como vislumbrando em sonhos 

Quem, quando, como, porquê e onde 

Ouvindo deitado à sombra de medronhos. 


Dando ouvidos não a homens mas ao logos,

Entendendo não a parte mas o todo completo 

Percorrendo rios, mares, ares, terra e fogo 

Procurando não fechar o ser entreaberto.


Quem sou eu? Luta entre contrários

Ou concórdia pacificadora? Uno ou vários?

E quem és tu, leitor, que habitas o poema 

Senão o mestre com a resposta ao dilema?


10.09.2026

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Serra de Minas


 







Igreja de S. Francisco de Assis (vista aérea a partir da Lagoa da Pampulha - D. Dabravolskas et al)



 

O amor é como uma montanha:

Quase que toca o céu azul turquesa;

Porém, baixas correm as nuvens

Maculadas pela dúvida e manha.

Nem os riachos alteram a branca veste

Do colosso sem limites nem margens.

 

Amando sempre reencontramos paisagens

Perdidas em poeiras de tempos imemoriais,

Rebanhos pastando em colinas de liberdade:

Todo o ar que respiramos, frescas aragens

Inspiram alegria através de mil pequenos sinais

- A alma se alimenta e prova a reciprocidade.

 

E quem me dera ter sempre a meu lado

O amor de quem guardo tamanha saudade

Qual a majestosa Serra de Minas é o alto fado.

 

Pudera entregar-me a pueris e divertidos jogos

De amor sem jamais renunciar a ser por igual amado

Ou permitir serrania a separar ou o fosso da idade.  

 

1986

domingo, 30 de agosto de 2026

A noite ser










Márcia Maia Mendonça (1948-1998), pintora de arte sacra (Ceará, Brasil)


Anoiteceu subitamente sobre a nossa clareira

E nesse instante apercebemo-nos da situação

Difícil, do instável andar à beira da ribanceira

Quando todo o caminho desaparece na escuridão.


Todas as referências se desvanecem 

É demasiado tarde para voltar, cedo demais

Para partir e o tempo e o ânimo arrefecem

Então se teme e treme: o que mais?


Há um momento em que o pânico se instala

E surge uma força, ouve-se a voz interior

A tormenta sossega e tudo o resto de cala

Apesar de cercada por mar, há uma ilha de amor.



16.04.2021

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Seppuku

 












Aurélio Bentes Bravo, "O Lugar do Silêncio", 2026, Tela s/ acrílico, 50X70


Prefiro o suicídio num poema ao sonho que acorda

Prefiro o sonho num poema, sonho que nunca acorda

Ao fim abrupto e repentino da preciosa vida,

Eterno sonho que não termina, eterno sonho que convida.

 

No papel, a tinta lavra um poema que tem um fim.

Tal como as palavras, também tenho fim, sou assim:

Um poema honrado que faz do hara-kiri seu fado

Guerreiro bushi-do esperando a morte, sabre ao lado.

 

No ritual que escolhi, fugi à desonra e à ignomínia

Enquanto possuía liberdade, múltiplas escolhas fazia,

Até que, despojado de tudo, meu país à morte obrigou

Vivo em sonho a única saída para tudo o que possuo e sou.

 

Eis o pesadelo que nunca termina e o fim da poesia

Encerrado na nobreza deste enorme castelo, preferia

Ser rei morto, rei posto que por um regicida deposto

É essa a minha vida, gritem “viva o rei!” com desgosto...


27.01.2016

terça-feira, 14 de julho de 2026

Lembro e relembro depressa

 












Florbela Espanca (1894-1930)



Ó pavoroso mal de ser sozinha!

Ó pavoroso e atroz mal de trazer

Tantas almas a rir dentro da minha!...

Florbela Espanca, À Margem de um Soneto, Contos




Confesso que vivi tanto estando tão só que riram de mim,

Deste jovem solitário, todas essas almas e mais algumas!

Agora, dito maduro, mal-acompanhado e mais perto do fim

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…

 

E, sim, todas elas, todas elas, desgraçado, rindo de mim:

Salomé saracoteando a cintura, a cabeça e vistosas plumas,

Cláudia cavalgando os simples estudando absorta no jardim,

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…

 

Certamente ouvi Maria Teresa, a prima, tanto riu de mim

Riram sem mentir, todas elas e ainda certamente mais algumas

Oh flores e odores primaveris que o outono desfolha assim

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…

 

Cristina, dos vítreos aromas, Madalena, um chá de jasmim

Ainda riem de mim desde a juventude e de suas tolas agruras,

Riem de mim todas elas e ainda certamente mais algumas

Desde o passado pavoroso, por entre as árvores do jardim,

São tantas almas a rir dentro da minha, castas e puras,

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas

 

 

14.07.2026

sábado, 4 de julho de 2026

O Corvo

 










Um corvo, algures num parque infantil em Lisboa


 

Escuta o belo melro preto

Que saltita assobiando

Atenta ao bico do negro corvo

Que pelo pinhal vai gritando.

 

Melodia simples sem estorvo

Tangida no verde pinho ecoando

O dia passando quase completo

E o tempo pelo espaço voando.

 

Se toda a mudança se resumisse a isso

Tal como todo o futuro ainda por vir

No riso duma criança passa o enguiço

Ver, ouvir, saborear a vida a bulir.

 

 

15.05.2026

domingo, 5 de abril de 2026

Páscoa


 







Templo Romano, S. Cucufate


Quando sentes que a responsabilidade

Tem um limite que é como a onda 

No mar, quando dentro da cidade

Sentes a presença que te procura e sonda.


Podes pensar que tudo está perdido

Até poderás sentir que todos contra ti

Estão, mas não, eu estou contigo

Procuro-te e amo-te desde que te vi.


Guarda este segredo na angústia,

Mantém a fé, a esperança, a astúcia,

Não te deixes enlear por todo o mal, 

Lembra-te da palavra - és luz e sal.


Corre até à meta, atinge o alvo

Por fim verás que chegaste a 

Bom porto, combateste o bom combate.



25.09.2025