Florbela Espanca (1894-1930)
Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da
minha!...
Florbela Espanca, À Margem de um Soneto, Contos
Confesso que vivi tanto estando tão só que riram de mim,
Deste jovem
solitário, todas essas almas e mais algumas!
Agora,
dito maduro, mal-acompanhado e mais perto do fim
Relembro
Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…
E, sim,
todas elas, todas elas, desgraçado, rindo de mim:
Salomé
saracoteando a cintura, a cabeça e vistosas plumas,
Cláudia
cavalgando os simples estudando absorta no jardim,
Relembro
Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…
Certamente
ouvi Maria Teresa, a prima, tanto riu de mim
Riram
sem mentir, todas elas e ainda certamente mais algumas
Oh
flores e odores primaveris que o outono desfolha assim
Relembro
Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…
Cristina,
dos vítreos aromas, Madalena, um chá de jasmim
Ainda
riem de mim desde a juventude e de suas tolas agruras,
Riem de
mim todas elas e ainda certamente mais algumas
Desde o
passado pavoroso, por entre as árvores do jardim,
São
tantas almas a rir dentro da minha, castas e puras,
Relembro
Maria, no dominó preto, emergindo das brumas
14.07.2026






