terça-feira, 20 de outubro de 2026

Inconsciente

 












Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa, 1964



A noção do Inconsciente

A visão lívida de fantasma

Será o poeta ser senciente

Afeição, esperança no plasma?


Poesia olvidada de um sujeito

Para sempre recitada, verso

A verso, sem corpo nem peito

Um outro eu com quem converso.


Pessoa isolada, afetuoso sonho

Esse em que fascinado vivo

Amor com que alegre componho

Um diálogo com quem convivo.


12.10.2026

sábado, 10 de outubro de 2026

Tempo de Agora









Salvador Dali, A Persistência da Memória, 1931



O que acontece agora

É uma mera ilusão, resvalo

Da mente, queda para fora

Entre passado e futuro, intervalo.


Algo me diz que hoje não existe,

Impressão de absurdo nada,

Abstração filosófica que persiste

Profundamente errada.


O presente é apenas momento

Fugaz e irreversível, intrincado

Dente na roda do tempo lento

Que circula a custo engrenado.


08.09.2021


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Aquela tarde


 











Jorge Palma (1950-2026), foto SPA


Aquela tarde quente e abafada

Em que conheci o meu amor 

Foi abençoada e sonhada

E ardeu em tempestivo calor.


Foi uma tarde de embaraço

Onde emerge o sentimento

Quando ela faz o que faço

Somos um nesse momento.


Brota de soslaio a nascente

De imensas águas em corrupio

Que vão descer na corrente

Desse imenso curso, nosso rio.



21.04.2021

sábado, 19 de setembro de 2026

Espaço & Tempo








Buraco negro, Royal Astronomical Society



Meu ser é inteiro e diverso

Difuso num universo aberto

Raro na imensidão e incerto

Como a luz na escuridão.


O único a quem se pode comparar 

É aquele que um dia fui

Imensa construção que, a edificar,

Primeiro demoli e assim ruiu.


Nestas andanças o eu vai indo

Em ciclos, ora acrescentando

Ser, ora ao nada se reduzindo

Ao mesmo tempo se libertando.



16.02.2024

sábado, 12 de setembro de 2026

Oráculo

 













A sombra do oráculo que nada esconde 

Busco acordado como vislumbrando em sonhos 

Quem, quando, como, porquê e onde 

Ouvindo deitado à sombra de medronhos. 


Dando ouvidos não a homens mas ao logos,

Entendendo não a parte mas o todo completo 

Percorrendo rios, mares, ares, terra e fogo 

Procurando não fechar o ser entreaberto.


Quem sou eu? Luta entre contrários

Ou concórdia pacificadora? Uno ou vários?

E quem és tu, leitor, que habitas o poema 

Senão o mestre com a resposta ao dilema?


10.09.2026

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Serra de Minas


 







Igreja de S. Francisco de Assis (vista aérea a partir da Lagoa da Pampulha - D. Dabravolskas et al)



 

O amor é como uma montanha:

Quase que toca o céu azul turquesa;

Porém, baixas correm as nuvens

Maculadas pela dúvida e manha.

Nem os riachos alteram a branca veste

Do colosso sem limites nem margens.

 

Amando sempre reencontramos paisagens

Perdidas em poeiras de tempos imemoriais,

Rebanhos pastando em colinas de liberdade:

Todo o ar que respiramos, frescas aragens

Inspiram alegria através de mil pequenos sinais

- A alma se alimenta e prova a reciprocidade.

 

E quem me dera ter sempre a meu lado

O amor de quem guardo tamanha saudade

Qual a majestosa Serra de Minas é o alto fado.

 

Pudera entregar-me a pueris e divertidos jogos

De amor sem jamais renunciar a ser por igual amado

Ou permitir serrania a separar ou o fosso da idade.  

 

1986

domingo, 30 de agosto de 2026

A noite ser










Márcia Maia Mendonça (1948-1998), pintora de arte sacra (Ceará, Brasil)


Anoiteceu subitamente sobre a nossa clareira

E nesse instante apercebemo-nos da situação

Difícil, do instável andar à beira da ribanceira

Quando todo o caminho desaparece na escuridão.


Todas as referências se desvanecem 

É demasiado tarde para voltar, cedo demais

Para partir e o tempo e o ânimo arrefecem

Então se teme e treme: o que mais?


Há um momento em que o pânico se instala

E surge uma força, ouve-se a voz interior

A tormenta sossega e tudo o resto de cala

Apesar de cercada por mar, há uma ilha de amor.



16.04.2021