segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Seppuku

 












Aurélio Bentes Bravo, "O Lugar do Silêncio", 2026, Tela s/ acrílico, 50X70


Prefiro o suicídio num poema ao sonho que acorda

Prefiro o sonho num poema, sonho que nunca acorda

Ao fim abrupto e repentino da preciosa vida,

Eterno sonho que não termina, eterno sonho que convida.

 

No papel, a tinta lavra um poema que tem um fim.

Tal como as palavras, também tenho fim, sou assim:

Um poema honrado que faz do hara-kiri seu fado

Guerreiro bushi-do esperando a morte, sabre ao lado.

 

No ritual que escolhi, fugi à desonra e à ignomínia

Enquanto possuía liberdade, múltiplas escolhas fazia,

Até que, despojado de tudo, meu país à morte obrigou

Vivo em sonho a única saída para tudo o que possuo e sou.

 

Eis o pesadelo que nunca termina e o fim da poesia

Encerrado na nobreza deste enorme castelo, preferia

Ser rei morto, rei posto que por um regicida deposto

É essa a minha vida, gritem “viva o rei!” com desgosto...


27.01.2016