segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Serra de Minas


 







Igreja de S. Francisco de Assis (vista aérea a partir da Lagoa da Pampulha - D. Dabravolskas et al)



 

O amor é como uma montanha:

Quase que toca o céu azul turquesa;

Porém, baixas correm as nuvens

Maculadas pela dúvida e manha.

Nem os riachos alteram a branca veste

Do colosso sem limites nem margens.

 

Amando sempre reencontramos paisagens

Perdidas em poeiras de tempos imemoriais,

Rebanhos pastando em colinas de liberdade:

Todo o ar que respiramos, frescas aragens

Inspiram alegria através de mil pequenos sinais

- A alma se alimenta e prova a reciprocidade.

 

E quem me dera ter sempre a meu lado

O amor de quem guardo tamanha saudade

Qual a majestosa Serra de Minas é o alto fado.

 

Pudera entregar-me a pueris e divertidos jogos

De amor sem jamais renunciar a ser por igual amado

Ou permitir serrania a separar ou o fosso da idade.  

 

1986

domingo, 30 de agosto de 2026

A noite ser










Márcia Maia Mendonça (1948-1998), pintora de arte sacra (Ceará, Brasil)


Anoiteceu subitamente sobre a nossa clareira

E nesse instante apercebemo-nos da situação

Difícil, do instável andar à beira da ribanceira

Quando todo o caminho desaparece na escuridão.


Todas as referências se desvanecem 

É demasiado tarde para voltar, cedo demais

Para partir e o tempo e o ânimo arrefecem

Então se teme e treme: o que mais?


Há um momento em que o pânico se instala

E surge uma força, ouve-se a voz interior

A tormenta sossega e tudo o resto de cala

Apesar de cercada por mar, há uma ilha de amor.



16.04.2021

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Seppuku

 












Aurélio Bentes Bravo, "O Lugar do Silêncio", 2026, Tela s/ acrílico, 50X70


Prefiro o suicídio num poema ao sonho que acorda

Prefiro o sonho num poema, sonho que nunca acorda

Ao fim abrupto e repentino da preciosa vida,

Eterno sonho que não termina, eterno sonho que convida.

 

No papel, a tinta lavra um poema que tem um fim.

Tal como as palavras, também tenho fim, sou assim:

Um poema honrado que faz do hara-kiri seu fado

Guerreiro bushi-do esperando a morte, sabre ao lado.

 

No ritual que escolhi, fugi à desonra e à ignomínia

Enquanto possuía liberdade, múltiplas escolhas fazia,

Até que, despojado de tudo, meu país à morte obrigou

Vivo em sonho a única saída para tudo o que possuo e sou.

 

Eis o pesadelo que nunca termina e o fim da poesia

Encerrado na nobreza deste enorme castelo, preferia

Ser rei morto, rei posto que por um regicida deposto

É essa a minha vida, gritem “viva o rei!” com desgosto...


27.01.2016