terça-feira, 14 de julho de 2026

Lembro e relembro depressa

 












Florbela Espanca (1894-1930)



Ó pavoroso mal de ser sozinha!

Ó pavoroso e atroz mal de trazer

Tantas almas a rir dentro da minha!...

Florbela Espanca, À Margem de um Soneto, Contos




Confesso que vivi tanto estando tão só que riram de mim,

Deste jovem solitário, todas essas almas e mais algumas!

Agora, dito maduro, mal-acompanhado e mais perto do fim

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…

 

E, sim, todas elas, todas elas, desgraçado, rindo de mim:

Salomé saracoteando a cintura, a cabeça e vistosas plumas,

Cláudia cavalgando os simples estudando absorta no jardim,

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…

 

Certamente ouvi Maria Teresa, a prima, tanto riu de mim

Riram sem mentir, todas elas e ainda certamente mais algumas

Oh flores e odores primaveris que o outono desfolha assim

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…

 

Cristina, dos vítreos aromas, Madalena, um chá de jasmim

Ainda riem de mim desde a juventude e de suas tolas agruras,

Riem de mim todas elas e ainda certamente mais algumas

Desde o passado pavoroso, por entre as árvores do jardim,

São tantas almas a rir dentro da minha, castas e puras,

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas

 

 

14.07.2026

sábado, 4 de julho de 2026

O Corvo

 










Um corvo, algures num parque infantil em Lisboa


 

Escuta o belo melro preto

Que saltita assobiando

Atenta ao bico do negro corvo

Que pelo pinhal vai gritando.

 

Melodia simples sem estorvo

Tangida no verde pinho ecoando

O dia passando quase completo

E o tempo pelo espaço voando.

 

Se toda a mudança se resumisse a isso

Tal como todo o futuro ainda por vir

No riso duma criança passa o enguiço

Ver, ouvir, saborear a vida a bulir.

 

 

15.05.2026