segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Formação





















A formação decorre conforme previsto, na ordem
Os professores combinaram as matérias que iriam dar
A seu tempo, entre si, foram eliminando o acaso e o azar
Todos os pormenores foram tratados como convém.
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Finalmente, chegou o dia, tudo correu como programado
Até mesmo os intervalos foram à hora marcada.
Só um pormenor bastante curioso e inesperado:
Trata-se de uma parede muito mal remediada.
«
Perguntei o porquê de obras com esse resultado mau;
Explicaram-me que em casa de ferreiro espeto de pau.
Pelo que me foi dado a entender, corrigir os defeitos
Da construção é uma tarefa que é causa sem efeitos.
«
19.10.2010

sábado, 18 de setembro de 2010

Verdade















«Procuro a verdade, pela qual nenhum homem jamais foi ferido» (Marco Aurélio)


Procurar um local e encontrá-lo
É permanecer nas suas imediações
A verdade exige preocupação e calo...
Ou saber dizê-la sem contemplações.

A verdade não fere ninguém
Mas, ao atingi-la já a esquecemos...
Ou foi ela a memória de alguém.
Mais que um facto, é o que vivemos.

Viver é partilhar a verdade, sentimentos
Que temos ao descobri-la...
É um processo e são eventos
É um momento e leva tempo a atingi-la.


18.09.2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Suposição
















Pensava eu cantar afinadinho
Quando nunca tinha tido oportunidade
De cantar para o Senhor um corinho;
Quando o pude cantar, experimentei a felicidade.

Sentia-me apaixonado e meu amor
Me amava, mas era tão estranho
Porque sentia prazer e dor;
Minh'alma vagueava num rio de estanho.

Encontrei (supus) alguém compartilhando
Mesmos ideais espirituais, amor eterno
Desde sempre procurado, para sempre partilhado;
Que sentimento poderia haver mais terno?

Porém, quem me seduz vive no mundo
E eu, seduzido, eis que no mesmo mundo vivo
Só agora compreendo que não pode ser imundo
Esse sentimento profano e verdadeiro que me tem cativo.


22.05.2008

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Os donos do trabalho


















Komintern

Os donos do trabalho
Tomaram conta das empresas
Jogam as cartas do baralho
Que escondem debaixo das mesas.

Tomaram conta das empresas
Sem escrúpulos apoderam-se
Dos lucros sem as despesas.
Ao trabalho concederam-se

São os donos do trabalho
A eles devemos o emprego
Mandam os donos pró caralho
E os trabalhadores pró sossego.


24.04.2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Encontro




















Leonardo da Vinci, "Vitruvius"


Queria ouvir, afinal ditei o assunto da conversa
Marcar o encontro, abrir a porta, esperar
Entrei com questões e fui examinado, fui falar
Perante o silêncio, parti sempre e vice-versa.

Porque tudo está determinado, tudo tem um plano
A origem está no sujeito que é apenas parte do todo.
Aprende-se com o erro, regularmente, ano após ano,
Vive-se, morre-se e o vórtice roda para o centro do rodo.

Leis inexoráveis que ultrapassam o entendimento
Apenas os acidentes naturais não são provocados
E estes podem ser previstos antes do momento,
Mas os danos, por desconhecidos, não são evitados.

Oh! Razão soberanamente iluminada,
Mentes que brilharam para a Humanidade
Hoje esquecida e são para o Homem nada.


11.06.2010

terça-feira, 8 de junho de 2010

Coisas













Nadir Afonso, Cidades


Que importância têm para nós as coisas?
Haverá significado neste mundo material?
Todas as coisas estão no chão
Fui eu que as lancei, sem ser por mal
Partidas estão as louças, não fui eu não.

Ainda há aqueles que tudo fazem por dinheiro
E todos os que não se preocupam
Com o mal que fazem a si e aos outros.
Mas afinal haverá o que todos procuram?

Segurei os meus desejos presos dentro
De mim. Apodreci-os não os realizando.
Hoje, tenho a memória deste poema
E surpreende-me a incapacidade que enfrento
Sinto-me vagueando, perdido na arena.

Como alguma vez conseguirei a este conto
De fadas a que pertenço?
Príncipe de coisa nenhuma, rei sem trono,
Já está perdida a batalha que venço.


1993

domingo, 30 de maio de 2010

Mauritânia









«... De Mauritânia os monte e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu
Deixando à mão esquerda, que à direita
Não há certeza de outra, mas suspeita.»
(Camões, "Lusíadas", V, 4)



Haja civilização lusitana que deu o mundo a conhecer
Nestes nativos da república que se diz portuguesa.
Possa o povo que já possuiu as terras do amanhecer
Ter também o interior das muralhas da sua defesa.

Mauritânia de exóticos sabores e esquisitos costumes
Hoje vens ensinar os patrícios acerca da tradição
Pois o culto e a família foram suprimidos numa nação
Onde apenas os ricos e os poderosos ficam incólumes.

Cristãos que ofertavam com a direita e a esquerda
Aprendem agora com os árabes os princípios de higiene,
Num caldeirão de culturas onde a grande perda
É do individualismo perante o colectivo mais perene.

O que levou os portugueses a descobrir novos mundos
Foi a curiosidade, a sede de desvelar o desconhecido,
Que moveu vontades, propósitos, templários e fundos
Até partir para partes que sonha o homem adormecido.

Em duas metades dividimos a esfera terrestre:
Uma, onde habita a novidade, a aventura
A outra, velho continente, onde o saber é mestre.

Ambas existiam, desconhecidas e ignotas
Antes de serem homens a elas levados
Por secretos mapas e ocultas rotas.


22.05.2010