sábado, 10 de outubro de 2026

Tempo de Agora









Salvador Dali, A Persistência da Memória, 1931



O que acontece agora

É uma mera ilusão, resvalo

Da mente, queda para fora

Entre passado e futuro, intervalo.


Algo me diz que hoje não existe,

Impressão de absurdo nada,

Abstração filosófica que persiste

Profundamente errada.


O presente é apenas momento

Fugaz e irreversível, intrincado

Dente na roda do tempo lento

Que circula a custo engrenado.


08.09.2021


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Aquela tarde


 











Jorge Palma (1950-2026), foto SPA


Aquela tarde quente e abafada

Em que conheci o meu amor 

Foi abençoada e sonhada

E ardeu em tempestivo calor.


Foi uma tarde de embaraço

Onde emerge o sentimento

Quando ela faz o que faço

Somos um nesse momento.


Brota de soslaio a nascente

De imensas águas em corrupio

Que vão descer na corrente

Desse imenso curso, nosso rio.



21.04.2021

sábado, 19 de setembro de 2026

Espaço & Tempo








Buraco negro, Royal Astronomical Society



Meu ser é inteiro e diverso

Difuso num universo aberto

Raro na imensidão e incerto

Como a luz na escuridão.


O único a quem se pode comparar 

É aquele que um dia fui

Imensa construção que, a edificar,

Primeiro demoli e assim ruiu.


Nestas andanças o eu vai indo

Em ciclos, ora acrescentando

Ser, ora ao nada se reduzindo

Ao mesmo tempo se libertando.



16.02.2024

sábado, 12 de setembro de 2026

Oráculo

 













A sombra do oráculo que nada esconde 

Busco acordado como vislumbrando em sonhos 

Quem, quando, como, porquê e onde 

Ouvindo deitado à sombra de medronhos. 


Dando ouvidos não a homens mas ao logos,

Entendendo não a parte mas o todo completo 

Percorrendo rios, mares, ares, terra e fogo 

Procurando não fechar o ser entreaberto.


Quem sou eu? Luta entre contrários

Ou concórdia pacificadora? Uno ou vários?

E quem és tu, leitor, que habitas o poema 

Senão o mestre com a resposta ao dilema?


10.09.2026

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Serra de Minas


 







Igreja de S. Francisco de Assis (vista aérea a partir da Lagoa da Pampulha - D. Dabravolskas et al)



 

O amor é como uma montanha:

Quase que toca o céu azul turquesa;

Porém, baixas correm as nuvens

Maculadas pela dúvida e manha.

Nem os riachos alteram a branca veste

Do colosso sem limites nem margens.

 

Amando sempre reencontramos paisagens

Perdidas em poeiras de tempos imemoriais,

Rebanhos pastando em colinas de liberdade:

Todo o ar que respiramos, frescas aragens

Inspiram alegria através de mil pequenos sinais

- A alma se alimenta e prova a reciprocidade.

 

E quem me dera ter sempre a meu lado

O amor de quem guardo tamanha saudade

Qual a majestosa Serra de Minas é o alto fado.

 

Pudera entregar-me a pueris e divertidos jogos

De amor sem jamais renunciar a ser por igual amado

Ou permitir serrania a separar ou o fosso da idade.  

 

1986

domingo, 30 de agosto de 2026

A noite ser










Márcia Maia Mendonça (1948-1998), pintora de arte sacra (Ceará, Brasil)


Anoiteceu subitamente sobre a nossa clareira

E nesse instante apercebemo-nos da situação

Difícil, do instável andar à beira da ribanceira

Quando todo o caminho desaparece na escuridão.


Todas as referências se desvanecem 

É demasiado tarde para voltar, cedo demais

Para partir e o tempo e o ânimo arrefecem

Então se teme e treme: o que mais?


Há um momento em que o pânico se instala

E surge uma força, ouve-se a voz interior

A tormenta sossega e tudo o resto de cala

Apesar de cercada por mar, há uma ilha de amor.



16.04.2021

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Seppuku

 












Aurélio Bentes Bravo, "O Lugar do Silêncio", 2026, Tela s/ acrílico, 50X70


Prefiro o suicídio num poema ao sonho que acorda

Prefiro o sonho num poema, sonho que nunca acorda

Ao fim abrupto e repentino da preciosa vida,

Eterno sonho que não termina, eterno sonho que convida.

 

No papel, a tinta lavra um poema que tem um fim.

Tal como as palavras, também tenho fim, sou assim:

Um poema honrado que faz do hara-kiri seu fado

Guerreiro bushi-do esperando a morte, sabre ao lado.

 

No ritual que escolhi, fugi à desonra e à ignomínia

Enquanto possuía liberdade, múltiplas escolhas fazia,

Até que, despojado de tudo, meu país à morte obrigou

Vivo em sonho a única saída para tudo o que possuo e sou.

 

Eis o pesadelo que nunca termina e o fim da poesia

Encerrado na nobreza deste enorme castelo, preferia

Ser rei morto, rei posto que por um regicida deposto

É essa a minha vida, gritem “viva o rei!” com desgosto...


27.01.2016

terça-feira, 14 de julho de 2026

Lembro e relembro depressa

 












Florbela Espanca (1894-1930)



Ó pavoroso mal de ser sozinha!

Ó pavoroso e atroz mal de trazer

Tantas almas a rir dentro da minha!...

Florbela Espanca, À Margem de um Soneto, Contos




Confesso que vivi tanto estando tão só que riram de mim,

Deste jovem solitário, todas essas almas e mais algumas!

Agora, dito maduro, mal-acompanhado e mais perto do fim

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…

 

E, sim, todas elas, todas elas, desgraçado, rindo de mim:

Salomé saracoteando a cintura, a cabeça e vistosas plumas,

Cláudia cavalgando os simples estudando absorta no jardim,

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…

 

Certamente ouvi Maria Teresa, a prima, tanto riu de mim

Riram sem mentir, todas elas e ainda certamente mais algumas

Oh flores e odores primaveris que o outono desfolha assim

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas…

 

Cristina, dos vítreos aromas, Madalena, um chá de jasmim

Ainda riem de mim desde a juventude e de suas tolas agruras,

Riem de mim todas elas e ainda certamente mais algumas

Desde o passado pavoroso, por entre as árvores do jardim,

São tantas almas a rir dentro da minha, castas e puras,

Relembro Maria, no dominó preto, emergindo das brumas

 

 

14.07.2026

sábado, 4 de julho de 2026

O Corvo

 










Um corvo, algures num parque infantil em Lisboa


 

Escuta o belo melro preto

Que saltita assobiando

Atenta ao bico do negro corvo

Que pelo pinhal vai gritando.

 

Melodia simples sem estorvo

Tangida no verde pinho ecoando

O dia passando quase completo

E o tempo pelo espaço voando.

 

Se toda a mudança se resumisse a isso

Tal como todo o futuro ainda por vir

No riso duma criança passa o enguiço

Ver, ouvir, saborear a vida a bulir.

 

 

15.05.2026

domingo, 5 de abril de 2026

Páscoa


 







Templo Romano, S. Cucufate


Quando sentes que a responsabilidade

Tem um limite que é como a onda 

No mar, quando dentro da cidade

Sentes a presença que te procura e sonda.


Podes pensar que tudo está perdido

Até poderás sentir que todos contra ti

Estão, mas não, eu estou contigo

Procuro-te e amo-te desde que te vi.


Guarda este segredo na angústia,

Mantém a fé, a esperança, a astúcia,

Não te deixes enlear por todo o mal, 

Lembra-te da palavra - és luz e sal.


Corre até à meta, atinge o alvo

Por fim verás que chegaste a 

Bom porto, combateste o bom combate.



25.09.2025


domingo, 19 de outubro de 2025

Por enquanto espero...

 












Inês Silva, 1995



Descubro que muito daquilo que eu penso 

Fica perdido no tempo. 

As ideias são limitadas pela acção.

E é também a prática que completa o senso. 


Mas será que vou submeter a minha vontade 

A uma concreta ambição? 

Devo, com certeza, se ela for reta 

E consigo sempre, com transpiração.


Concluo então que terei de definir 

Um objectivo e abandonar-me 

A um esforço de acção.

Mas parece que não encontro em mim 

Dom, dinâmica, energia: 

       Estarei certo? 

       Estarei errado? 


Conseguirei se acreditar.

Acreditarei, no entanto, depois de conseguir 

Algo.


      Por enquanto espero.....

 

1987

sábado, 2 de agosto de 2025

Ajuda

 



















"Pandora", George Hitchcock



Dádiva prestada a pedido,

Contribuição em numerário

Jamais em género referido

Para não ferir o proprietário.


Mui bondosa e altruísta doação

Agradecida sem ponta de ingratidão

A lembrar alguma ocasião especial

Como um aniversário ou o Natal.


A quem serve afinal a ajuda

Se não a quem, generoso, a presta,

Uma vez que ela vai toda

De quem tem para quem já nada resta?


23.09.2021

sábado, 10 de maio de 2025

Genial!

 









Adão, Miguel Ângelo


Participar mais intensamente na vida social

Tirar proveito de muitos relacionamentos

Transmutar em bem o muito desejado mal,

Tudo isso traz à vida novos desenvolvimentos.


O que seria da Humanidade sem tecnologia?

O saber das gerações sem oralidade?

A memória da escrita sem sabedoria?

As respostas são dadas pela genialidade.


A faísca adâmica que Deus envia

Ou o fogo prometeico entregue ao Homem

São símbolos do poder da árvore da vida

E o fruto acessível tem nome escrito no livro.


26.02.2024

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Todos, todos, todos

 









Fonte: Vatican Media / EPA


Amado filósofo professor de LGBT 

Que me odeia e a outros por ser “cristão”,

Siga a sua teoria, ponha em prática

A religião em que acredita que eu não.


Vivemos em democracia mesmo que na tal

Haja banheiro / casa de banho igual

Para meninos e meninas; mas que “cristão” não,

Vá por esse caminho e julgue ou seja perdoado.


Nos concursos fica sempre bem colocado

Recebe com cerimónia o senhor inspetor:

- Sua excelência veio saber quantas crianças 

Transexuais existem na escola deste lado…


Uma imagem, mil palavras, na minha opinião 

Uma pessoa diz à outra, apesar das diferenças:

Viva a sua vida, arrependa-se e receba o perdão!


24.04.2025

domingo, 29 de setembro de 2024

Convite

 

Iolanda Soares Lopes, "O Pensador da Roda"
Óleo sobre cartão, 70x50



Neste pequeno planeta azul

Um instante por breve que seja,

Ou curta viajem de norte a sul

Desorienta quem o dá e o deseja.


Pedi-lo é luxo maior que concedê-lo

Se o evento é pago ou gratuito

O maior custo é tempo para vê-lo,

Com muita coragem se tem o intuito.


A quem custa mais o convite?

A quem o dá ou a quem o recebe?

Torna-se difícil dar um palpite

Quando é a poesia que o concebe.


24.10.2022

quinta-feira, 28 de março de 2024

Só com o coração se vê











  


Leonardo da Vinci, "Briza maxima", c. 1481-1483

Com a paixão se vive e se desvive, durante muitos anos assim foi, vivia para ela e por ela desvivia, não podia viver com ela, sem ela não viveria.

Alegre, Manuel, “A Terceira Rosa”, Lisboa, Leya, 2009, p. 84


Com a paixão ainda vive desvivendo

Se visse com este olhar certamente amaria

Mas ainda que com a paixão vá vivendo

Melhor seria que amando sem ela vivesse.


Pois melhor é morrer que viver sem amar,

Do que com a paixão ir vivendo sem viver.

Todos, sem olhar se podem apaixonar

Mas só com o coração se vê e consegue ver.


Coitado de quem não deseja viver e desviver,

Pobre de quem vai vendo os anos passar

Com uma paixão vivida sem viver,

Melhor seria olhar do que sem olhos ver.


01.03.2024


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Verbo e pensamento

 









Que estranho é algo que permanece imóvel

Como se reduzido a uma continuidade

Espácio-temporal incompreensível e ignóbil

Como uma mónada isolada na sua unidade.


Uma eternidade se joga no presente do indicativo

Mas o verbo precede ao pensamento

Discursivo no ser ante predicativo

E toda a eternidade se reduz a um momento.


Jesus ajuda quem não é religioso

Subitamente no deserto surge Satanás

Rodeia-o acusando-o de ser zeloso

Mas força maior o impele para trás.


Quem é educado para ser honesto

Aprende a custo que pode estar errado

Quando vem um presidente ou aldrabão

Que rouba acusando a vítima de ladrão.


02.11.2022

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Predeterminação

 


Dina de França, acrílico s/b tela    
 
@Carla Cóias
                                  

Acasos fortuitos são impossibilidades

No reino do predeterminado,

Não existem meras casualidades

Perante o inexorável fado.


Mas quando a linha condutora

Do destino é que dita a acção,

Então que verdade redentora

Liberta o homem de sua condição?


Plano divino que aceito humilde

Ensina-me a viver do porvir ciente,

Apesar do que sucede amiúde

Sem a evidência de Plano aparente.



07.09.2021

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Senhora Coordenadora

 









Palácio de Biester, pormenor do fresco no teto do quarto de hóspedes



Certa coordenadora de greves dizia um dia

Que na sociedade eu seria apenas um número

Não importava tudo o que eu era ou fazia,

Condição humana, meu destino e não o que quero.


Como se irremediavelmente entregue ao fado

Sem apelo nem agravo, qual casca de noz

Vogando as enormes vagas no bravo mar eivado

A elas nem o povo pode sequer levantar a voz.


Perante tais elucubrações, como ficar calado?

Um dia haverá em que a tirania será de finda era,

Como Atlas criou Gibraltar sem o passar a nado

Nos mesmos ombros em que carrega, condenado, a Terra.


Cantemos, pois, inspirados por ninfas e nereidas

Pois se levamos a eito o peso da opressão,

Temos esta canção como a semente das queridas


08.05.2021

terça-feira, 2 de maio de 2023

Fantasia e Imaginação

 

















Aguarela de Cláudia Ribeiro (29,7x42cm)


Voando tão alto a fantasia

Contempla minúscula em baixo

A realidade que se extasia

Tendo ambas fim cabisbaixo.

 

Mas, colaborando com a imaginação

Pode haver justa conciliação

E o voo alto e elevado da fantasia

Pode encontrar o real em harmonia.

 

São duas vertentes num mesmo nume

E nessa união trasvasante de emoção 

Ascende o poeta na montanha o cume

Aos píncaros com prazer no coração.

 

2023.04.25