sábado, 21 de maio de 2011

Baco


















Everdingen, "Bachus with Nymphs and Cupid", c. 1660


Sóbrio?
Sóbrio para quê?
Aqui e agora
Há apenas isto.
Vês nisto alguma maldita
Sobriedade?

Será que há,
Na primariedade
E na nossa animalidade
Alguma sobriedade?
Há apenas insinceridade
Temporalidade e vanidade.

Estamos, na verdade,
Todos bêbados.
Há, na nossa passagem
Algo genuíno?
Ou haverá solidão
E a nossa triste,
E infelizmente condicionada,
Bestialidade?


1998

Cronos




















Goya, "Saturno devorando a un hijo", (1819-1823)


O tempo passa...
O tempo vem,
O tempo vai!

O que fica,
Senão o ser
Que foi,
E o ser que
Está para vir.

O tempo
Não traz nada
Senão tempo...
Tudo o resto,
São meras e efémeras
Ilusões.

Não há,
Tudo foi,
E tudo será...
E nada ficará.

O tempo passou...
O tempo veio,
O tempo foi.


1998

Afrodite













Boticcelli, "O Nascimento de Vénus", c. 1485


Vi-te;
Estavas tu ali,
E eu estava aqui.
Tão distantes
Que estávamos,
Estando nós,
Naquele instante
Juntos e contentes.

Não cheguei
A saber o teu nome
(Talvez nunca
Venha a saber),
Mas amei-te,
No entanto,
Naquele momento,
E agora e sempre.


1989

terça-feira, 19 de abril de 2011

Graal

















Drapeau Studieren
, retirado do blogue www.forum-gallecia.net




Sangue real, rei sol
Protegido pela amizade

Envolto em branco lençol
Manta e coroa de lealdade.

Branco meu cabelo
Marca com o valor
Verdadeiro, justo e belo
Sentimento dado - amor

Eis que o sangue e corpo
Celebro, levanto o cálice
Ao alto, espada de luz.

Elevado é o preço da cruz
Delicado sabor que delicia
Todos que meu reino seduz.


22.02.2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cavaleiros de Cristo



















Convento de Cristo, Tomar


Em França, são factos narrados,
Quando Filipe de cognome o Belo
Se uniu ao Papa e seus prelados

Movia-o mais o dinheiro que o zelo.


Tendo perseguido a Ordem Templária

Queimou os cavaleiros em espetos

De pau numa perseguição sanguinária

Por um tesouro que deveria ser dos rectos.


Foi então que, movido por um misto

De compaixão e profecia, D. Diniz

Criou em Portugal a Ordem de Cristo

Que levou a armada a porto feliz.



28.03.2011

sábado, 26 de março de 2011

Mãe















Uma mãe, Maria Pereira de Andrade


Mãe:
Tu que contas
As moedas
Para nos dar
A nós, teus filhos
Para almoçar,
Obrigado.

Tu que
Me vinhas
Dar boas-noites
À cama,
E cobrir-nos com beijos,
Obrigado.

Mãe:
Tu que pensavas
Em nós,
Antes de amar
A ele,
Obrigado.

Tu que
Nos amavas
Por nós sermos
Teus filhos
Que até compravas
As núvens para
Nos fazer felizes -
A ti, nossa mãe,
Obrigado.


17.03.1987

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Lethes


















De todas as dívidas que tive de pagar,
Apenas uma jamais poderei acarretar:
É aquela da malícia, cujo sorriso triste
Mas trocista tu, inacessível destino, cumpriste

Por apenas algum tempo, pouco e parco
Acedeste falar comigo. Foi como ir de barco
De mar em mar, e hoje só olho o Passado,
Como se tudo o que embarcou tivesse naufragado.

Ah! Pudera eu deixar de sofrer por este meu tesouro
Que jaz perdido nas profundezas. Até o Sol de ouro
Parece rir de mim, tão miserável; tivessem sido
Piratas, algo se salvaria, nem que tivesse falido.

Mas, pior do que a morte, mais triste que este atroz
Destino, é tudo o que tenho ser - areia, cal e pós,
Tributo em honra deste amor que não se deu,
E, mais que uma dívida, quem perdeu a troca fui eu.

Para quê tanta infelicidade? Ainda se poderia
Dizer que é melhor ter a ficar a dever,
Mas nem mesmo bom é perder quando se fia;

Tanto pior será gastar esta caravela para ver
Tanto desperdício, e tudo se afundar, a quem mais confia
Nas hordes das marés, e continuar a viver?


1998