quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Em Busca

 








Scarlett Johannsson

Quantos dias se perderam como alvas cortinas
A esvoaçarem, em que o tempo, sempre a correr,
Passou e não pôde ser encontrado?
Ah! Também eu subi essas escadas assassinas.
 
Procurei por ti, havia tanto para dizer…
Mas sempre esbarrava no teu doce passado
Até que finalmente te consegui ver
E fugi para ti, que sou o teu agrado.
 
As coisas muito desarrumadas, mas duas sinas
Que se encontram, nada têm que fazer,
Senão matar as saudades do ser amado!
Interiormente, falaram nossas vozes sibilinas.
 
Estou certo que, como o vento que já passou,
Esta esperança já se desvanece, perdida
No imenso mar de tudo o que acabou.
 
Soçobrou a lembrança, e esta vida
Que tão cedo nos irá juntar já começou
No momento em que te deixei para trás, perdida.

23.06.2001

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Solidão

Última Cela, Museu da Loucura, Barbacena, MG, Brasil


Estar só na partilha
Dos bens essenciais
É ser lobo sem matilha,
Apático aceitar os demais.

Estar só é sofrer a dor
De ver partir quem se ama
É sentir medo, pavor, terror
Sem mais ninguém na cama.

A solidão pode ser sofrimento
Uma noite, um ano, a vida inteira
Quem me dera senti-la um momento
Apenas, mas não, é sempre verdadeira.

Mas nesta solidão que angustia,
Nestas noites de terror nocturno
A minha vida é um eterno dia
Que tem em Deus um juiz soturno.


23.10.2011


sábado, 30 de maio de 2020

Declaração




















Eusábia



Afirmo do fundo do coração
Que estive profundamente apaixonado,
Servindo, para todos os efeitos, esta declaração
Hoje para revelar o amor não declarado.

Forte mas fugidio sentimento e desgosto
Enorme que o acompanha de não ter tido coragem
De o confessar perante o admirado rosto
De quem se ama e se perde no tempo com voragem.

Mas, maior que a admiração pelo amor não declarado
Ontem é a tranquilidade que sente hoje quem
Ama alguém e se revê com paixão no ser amado.



14.04.2019

terça-feira, 5 de maio de 2020

Confinados





















Há uma terra no nosso País
Talvez cidade, vila ou aldeia
Onde os forasteiros são vis
E os locais pessoas de cara feia.

Curioso ouvir acerca desse sítio
Desabafos vindos de emigrantes
Queixando-se de viver num suplício
Com gentes de gestos deselegantes.

Salas de aula, escolas inteiras,
Divisórias onde alguém se tranca
Portas se fecham, cerram-se fileiras
Guerra sem quartel nem bandeira branca.

Do global para o local, Planeta, Continente, País
São tantos os sítios onde se confinam habitantes
Virulenta doença, mal por se cortar pela raiz
Ou portas por abrir por valores mais relevantes.

A chave por rodar nas fechaduras
De tantas portas trancadas é sarar
Dos confinados profundas pisaduras,
Reconstruir o destruído, enfim, restaurar.

05.05.2020

segunda-feira, 16 de março de 2020

Palavras

«Dans ma maison qui n'est pas ma maison tu viendras.»
(Prévert, Jacques, "Paroles", ed. bilingue, Sextante, Lisboa, 2007, p. 138)


A Tiago Lemaître

Agora, a esperança partiu mais cedo,
Sou a última e singela homenagem
Neste momento que considero ledo
Mesmo até ao Além levo mensagem:

Aos anos que passam posso enfim
O amor, carinho e amizade descobrir
Para quando derradeiro chegar o fim
Da esperança o rosto deixe de sorrir.

A vida é uma casa comum e entra
Só quem é convidado ou devolve
Se pode a visita, apenas entra
Quem é chamado e se envolve.

28.05.2019

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Uma Gaivota

«Uma gaivota que passa,
E a minha ternura é maior.»
Ode Marítima, Álvaro de Campos


Uma gaivota majestosa
Voava pelo céu desgostosa
Em terra catava lixo
Na água nada achava.

Um dia de liberdade ecoava
Pelos ares, ainda sobrevoava
Sobre sete mares, gritava
Uma gaivota, voava, voava.

Em bando,  gaivotas todas
Unidas gritavam pelo Planeta,
Terra mãe desventrada,
Quando será por fim libertada?

26.04.2019

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Intelectual
















In: "Devaneios a Oriente", 2019.01.30


Olhar vagaroso sob lentes grossas
De óculos com aro de tartaruga,
O intelectual discorre sobre causas nossas
Com a sabedoria popular do bom portuga.

Refugiado na hemeroteca, secção de reservados,
Mergulhado entre mil capas de livros e periódicos,
Relendo artigos do Maio de 68 de autores consagrados
E sobretudo acerca do Abril de 74 em tiques metódicos.

Pigarreando antes de falar, tossicando,
Febrilmente a acção dos outros determinando -
Sim - porque a sua, para pormos os pontos nos iii
É, na teoria, o critério da verdade, chamada praxis.


10.04.2019